Homenagem a Gílson Carvalho

Paula Carnevale*

O que dizer da partida precoce dessa pessoa tão querida, gente em essência, o médico pediatra sanitarista, como gostava de se apresentar, Gilson Carvalho? Tudo parece pouco, tanto ainda tinha a ensinar (e, como insistia, aprender) nessa vida.

Pediatra acolhedor, atento para as alegrias e angústias manifestas e insuspeitas, cuidou das pessoas em todas as suas dimensões. O orgulho de ser pediatra se manifesta na forma como assina seus emails, em especial as deliciosas domingueiras – às vezes informativas, quase sempre provocativas, tantas vezes poéticas, sempre inconfundíveis na escrita clara, direta, comprometida com a defesa do público, do comum, do SUS.

Que falta farão as domingueiras! Fico pensando como veio ao pediatra se somar o sanitarista: talvez o olhar um pouco além, combinado ao aguçado sentir, ao desejo de querer conhecer, embalado pela tensão criativa e transformadora dos anos de chumbo o tenham tomado pela mão e pelo coração.

Que sorte, ele se fez Sanitarista (Gilson, pode ser extinta essa carreira??!?). Nada mais coerente para um médico que acredita numa sociedade mais justa, tecida por laços de respeito e de amor. Em São José dos Campos, secretário de saúde, projetou e implementou a rede pública de saúde no final da década de 1970, e é a principal referência da cidade. Mas se isso diz muito para a cidade, diz pouco sobre ele: de lá partiu para percorrer o país, de tal forma que não é mais mineiro, nem joseense ou paulista: é cidadão brasileiro.

Especializou-se, como convém na nossa sociedade de saberes: mestrado, doutorado, títulos pelos quais as pessoas são usualmente reconhecidas. Mas Gilson, Gilsão, circula pela Academia como nos conselhos de saúde, nas reuniões de bairro e comunidades, nos encontros de gestores, ou entre trabalhadores: sempre o mesmo, próximo de seus interlocutores; gentil e combativo; delicado e firme em seus princípios e propósitos; generoso e justo, sempre ouvindo, ensinando, aprendendo.

E é daí que vem seu reconhecimento – não do saber distante, mas da imediata percepção de tantas outras virtudes: bondade, otimismo, atitude ponderada e respeitosa, coerência entre a fala e a vida, disposição para o enfrentamento (seja ele qual for), envolvimento, compromisso. Contrapõe ao saber protocolar a riqueza da vivência e ao pessimismo, a construção solidária. Sua vida pessoal e familiar espelha esses valores, infelizmente tão raros na sociedade contemporânea.

A partida de Maria Emilia, sua primeira, única companheira de toda a vida o entristeceu profundamente. Em meio ao pesar, encontrou em um novo projeto, o planejamento de um curso de medicina na faculdade comunitária de São José dos Campos, a possibilidade de concretizar antiga utopia: a formação de médicos como aquele que ele mesmo foi. Novos parceiros, novas ideias, novos emails madrugada afora, Gilson seguia incansável, seguro, feliz; uma invejável, juvenil disposição.