Idoso exige política de longo prazo – Marília Louvison falou sobre o tema ao jornal Valor Econômico

Por Gleise de Castro | Para o Valor, de São Paulo

Sistema pública não está adequado para terceira idade

Conquista da medicina, associada a desenvolvimento econômico e políticas públicas de saúde, a longevidade tornou-se, paradoxalmente, um desafio para os sistemas de saúde. As pessoas estão vivendo mais, porém enfrentam um envelhecimento complicado, marcado por doenças crônicas, que comprometem a qualidade de vida e elevam os gastos com tratamentos prolongados. “Em países muito desiguais como o nosso, muitos dos nossos idosos estão envelhecendo com muitos problemas de saúde, com aumento das condições crônicas, que ao final da vida, muito frequentemente, se traduzem em incapacidades funcionais e dependências”, diz a médica sanitarista Marilia Cristina Prado Louvison, professora da Faculdade deSaúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação Paulista de Saúde Pública (APSP). Isso compromete os serviços de saúde, com mais consultas e mais internações, mais caras e prolongadas, refletindo-se na organização e sustentabilidade dos sistemas de saúde.
Entre 1980 e 2012, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou de 62,52 anos para 74,5 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Projeção do instituto mostra que o grupo de pessoas com 60 anos ou mais, que em 2012 chegou a 12,6% da população, alcançará 13,8% do total, em 2020, e 33,7%, em 2060. Depois de 2030, esse grupo de pessoas será maior que o de crianças com até 14 anos. Em 2055, sua participação na população total será maior que a de crianças e jovens com até 29 anos.
A situação abala tanto o sistema público quanto o privado, ainda não preparados para responder às demandas dessa revolução demográfica e epidemiológica, em que as principais causas de enfermidade e morte não são mais a má-nutrição e doenças infecciosas, mas sim doenças cardíacas e respiratórias, diabetes tipo 2, câncer e outras enfermidades crônicas, além da violência. “O modelo de atenção com alta tecnologia que produzimos não indica resultados satisfatórios e se torna insustentável ao longo do tempo”, diz a professora Marilia. Para ela, a alta carga de condições crônicas e dependência demanda bons sistemas de saúde integrados em redes de serviços multidisciplinares.
Para o ministro da SaúdeArthur Chioro, o envelhecimento da população representa dois grandes desafios: estruturar o atendimento do idoso enfermo e, ao mesmo tempo, adotar um conjunto de políticas de prevenção para que as pessoas possam envelhecer livres de incapacidade. Redução do tabagismo, da obesidade, do sedentarismo, do consumo excessivo de álcool e a adoção hábitos saudáveis, um consenso entre os especialistas, é apontada pelo ministro como linha mestra de um programa de prevenção. “O grande desafio para o próximo governo será sair da agenda da doença para a agenda da promoção da saúde e prevenção. É mais lógico e mais eficiente”, diz Chioro.
A professora Marilia aponta para a necessidade de ações para prevenir quedas, diagnóstico precoce de demências e deficiências auditivas e oculares, atenção à saúde bucal, cuidado domiciliar e atenção aos cuidadores, geralmente também idosos. “As famílias se reduziram e as mulheres estão no mercado de trabalho. Os idosos e suas famílias também precisam de proteção social”, afirma. Países como Canadá, Inglaterra, Espanha e Portugal, segundo a sanitarista, construíram um sistema de atenção primária que responde melhor a essas demandas, com equipes qualificadas, além de investirem em sistemas de cuidados de longa duração ou continuados. “São sistemas responsáveis pelo atendimento de idosos com dependências. Quando essas demandas são incorporadas apenas ao sistema de saúde, aumenta o custo dos serviços, à medida que a população envelhece, sem que os resultados sejam ampliados”, explica.


Para a sanitarista, o Brasil ainda enfrenta o envelhecimento de forma tímida. É preciso formar médicos especializados, como geriatras e gerontólogos, que estudam o envelhecimento. “Além disso, o SUS precisa definir melhor o papel desses especialistas e incorporá-los em rede e não pulverizá-los em novos serviços isolados”, afirma. Vários estados e municípios começam a incorporar esses profissionais no apoio à equipe desaúde da família, como o Estado de São Paulo, que implantou o Centro de Referência do Idoso (CRI), com duas unidades na capital e proposta de expansão também para o interior. Já o município de São Paulo instalou as Unidades de Referência à Saúde do Idoso (Ursi), com equipes menores de apoio, em unidades básicas de saúde (UBS).