Isolamento social: fazer ou não fazer?

Muitas notícias têm sido difundidas ultimamente sobre os melhores métodos de se enfrentar a pandemia do novo coronavírus, e algumas delas são contrárias entre si. Então como podemos ter certeza de que as medidas que temos tomado serão efetivas? Cientistas, profissionais da saúde, Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde e os governos de outros países todos recomendam a mesma ação: isolamento social total (como exposto nesta cartilha). Nessa linha, os governos estaduais e municipais do Brasil têm orientado a população nos cuidados básicos: lavar bem as mãos, higienizar os objetos e ambientes domésticos e sair de casa apenas para o estritamente necessário.

Porém, na última terça-feira 24 de março, o Presidente Jair Bolsonaro criticou medidas de isolamento para combater o novo coronavírus e chamou a doença Covid-19 de “gripezinha”, minimizando o impacto das milhares de mortes que esta pode causar se ações de prevenção como o isolamento não forem tomadas. Apesar de receber diversas críticas negativas na internet de profissionais da área e outros políticos, esse pronunciamento teve impacto na percepção da população sobre tais ações. Segundo levantamento do instituto de pesquisa Ipsos, mais da metade dos brasileiros (56%) acreditam que o isolamento social não vai impedir o alastramento do novo coronavírus pelo país.

Então, com esperar uma adesão às medidas se a população recebe mensagens tão controversas?

Nesse momento, a melhor aposta é dar ouvidos a ciência. Maria Encarnação Beltrão Sposito e Raul Borges Guimarães, professoras da UNESP – Presidente Prudente, chamam nossa atenção para a disseminação do vírus de modo globalizado, relacionado com as interações espaciais existentes na rede urbana brasileira. Um efeito disso é o medo, que superdimensiona problemas que a coletividade precisa enfrentar ou ainda invisibiliza as questões de grande importância, como a priorização de grupos mais vulneráveis em detrimento das necessidades individuais. Concluem que não há como encarar esse desafio no plano individual e privado, apenas coletivamente e como ação pública.

No campo da Saúde Pública, Ricardo Rodrigues Teixeira e Ivan França Junior médicos sanitaristas das Faculdades de Medicina e de Saúde Pública – USP (respectivamente), assinam um artigo na folha onde apresentam as medidas tomadas em dois países: Coreia do Sul e China.

COREIA DO SUL: teve seu foco principalem indivíduos afetados e considerados de “alto risco” para a disseminação, como ações como busca ativa de possíveis infectados, teste de pessoas sintomáticas e seus contatos, visitas domiciliares, monitoramento de transeuntes, imposição de quarentena e cuidado aos positivos. O país também possui um sistema nacional de saúde universal e gratuito. Há quase 9.000 casos e 104 mortes e foi bem-sucedido no achatamento da curva de contágio, sem zerar a transmissão, mas desacelerando a disseminação, preservando a capacidade de resposta do sistema de saúde e com uma das menores taxas de letalidade.

CHINA: implantou a estratégias de larga escala, como cancelar eventos e fechar espaços públicos, aliada a medidas individuais, como distanciamento social e etiqueta respiratória. A China já conseguiu zerar a transmissão doméstica. O modelo chinês parece estar perto do controle epidêmico.

No Brasil, a testagem permanece restrita à confirmação diagnóstica de casos graves, com indicação de avaliação dos contatos próximos, e também também vem sendo adotado um distanciamento social, partindo de governos de Estados e municípios. O SUS vem sendo subfinanciado, especialmente após a EC 95, e o baixo número de leitos de UTI no país acende um alerta para a resposta frente às demandas do novo coronavírus.

Apesar das precauções tomadas no Brasil, milhões de brasileiros sobrevivem de ganho diário em trabalhos precarizados, sem proteção social e sem condições adequadas de moradia e saneamento, alguns vivendo nas ruas. Esses brasileiros estão divididos entre o isolamento social e a falta de comida na mesa. Ontem, 26/03 a Câmara aprovou o auxílio de R$ 600 para pessoas de baixa renda durante epidemia, como forma de manter o isolamento social e garantir o subsídio das necessidades básicas da família.

Mesmo assim, o Presidente da República vem reiteradamente emitindo discursos contrários ao isolamento social e diminuindo o poder destrutivo do vírus (tanto à saúde das pessoas, como do sistema de saúde), e foca seus ataques no âmbito econòmico: uma recessão, que seria pior que o próprio vírus. Além do pronunciamento já mencionado do presidente, este faz chacota do povo brasileiro, apesar do crescente número de novos casos e mortes.

Alguns estados já vêm mudando seus discursos e suspendendo as medidas de confinamento por medo do impacto econômico, como Mato Grosso e Rondônia.

Associação Paulista de Saúde Pública está a favor de todos os cientistas e apoia todas as medidas necessárias para se resguardar a vida, os direitos humanos e a integridade dos brasileiros. Apesar do exposto, a OMS é diversas sociedades médicas e de saúde são claras: isolamento social e hábitos de higiene

 

Confira também a Nota à Imprensa da Congregação da Faculdade de Saúde Pública da USP sobre a evolução da pandemia de Covid-19 no Brasil.

apspweb

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