Um movimento de cultura popular encontra a Unidade Básica de Saúde:diálogo com o Ecomuseu

A percepção ampliada da saúde pode, potencialmente, modificar o rumo da medicalização da vida que temos visto acontecer com intensidade cada vez maior, e é um fértil campo de trabalho para as equipes de saúde da família. No entanto, nos bairros e na cidade, os diversos movimentos e ações que trabalham essas dimensões nem sempre percebem que estão fazendo saúde. Será que nós, nas unidades de saúde, as reconhecemos e trazemos como aliadas para nossa prática cotidiana de trabalho? Nessa roda de conversa, uma experiência concreta de valorização do saber popular e construção de redes e vínculos com base nos saberes e fazeres comunitários foi discutida com equipes de saúde da família, numa conversa sobre a possibilidade e urgência dessa integração saúde/práticas socioculturais no território.

O Ecomuseu , projeto do Centro de Estudos da Cultura Popular, se fundamenta no princípio de que a identificação e valorização das referências culturais locais empoderam os cidadãos. Segundo o próprio projeto, “a ação ecomuseológica busca identificar e fortalecer a relação dos homens com seus patrimônios”, reconhecendo a coexistência das diferenças culturais e promovendo sua cooperação. No bairro Campos de São José, em São José dos Campos, o fortalecimento do saber e fazer individual e coletivo estimulou a identificação dos patrimônios locais e a mobilização dos indivíduos para o investimento coletivo em diversas ações de cidadania e responsabilidade social: a apropriação de uma praça para a realização de feira de artesanato, a negociação com órgãos públicos e instalação de uma horta comunitária, o cuidado com o bairro, consigo e com o outro. Nesse caminho, mais sentido de vida, menos depressão e adoecimento, ampliação dos limites que pareciam cercear a vida de pessoas com supostas incapacidades.

Na roda de conversa, pontos ressaltados foram o reconhecimento da força do coletivo para superar limitações físicas e subjetivas, a incompreensível dificuldade e fundamental necessidade de aproximar ações comunitárias do setor público, a cultura como caminho para a saúde – e vice e versa – , a importância de tratar cada um como um e simultaneamente  muitos. A percepção de vivermos um mundo digital, informatizado, solitário e a necessidade de alimentar a alma lembrou Rose, Agente Comunitária, da música dos Titãs: você tem sede de que? nossa alma também precisa de afago, estamos todos muito sós. Reconhecer afinidades, compartilhar ideais e projetos nos fortalece.

 

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